sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Mulheres na Cena: Parte I "O Underground"

As entrevistadas: Ilana Viviane e Clara damascena


O contexto de luta por representatividade feminina e a representação social da mulher são meus objetos de estudo na universidade, são tema em roda de conversa entre amigas e amigos, são referência para textos, filmes, séries e livros que consumo. Nesse contexto, tive a ideia de conversar com artistas mulheres sobre esse assunto, sobre o que produzem e como é fazer música aqui no Piauí, ainda mais no ambiente independente. Quatro mulheres foram convidadas, no entanto apenas duas toparam falar sobre suas carreiras, influências, concepções, feminismo, cultura e cena. Então vamos assim mesmo.

É complexo entender a presença feminina na música atualmente. É uma constante luta da representatividade contra a representação. Em um exemplo claro, representatividade no contexto feminino seria a constante participação, a luta por visibilidade de mulheres que produzem, compõe, tocam, escrevem e outras diversas formas de produção, contra uma representação massiva que nos colocam como objetos incapazes e inexistentes nas artes em geral.

As entrevistadas são duas mulheres baixistas que convivem em um ambiente da cena musical teresinense, que se inseriram em espaços que antes eram essencialmente masculinos, ou que nos fizeram pensar que sim. Com produções que não se baseiam em expectativas de outros, mas na medida de suas próprias convicções, sobrepondo limites e metas impostas. É como uma alusão que Kim Gordon, ex baixista da Sonic Youth, faz em sua autobiografia: “É como a famosa distinção entre arte e artesanato: arte, e desequilíbrio, e ultrapassar limites, é uma coisa masculina. Artesanato, e controle, e delicadeza, é para as mulheres”.

Poderia até mesmo me incluir nesse contexto de “inserção” num espaço que se quer masculino, a partir do momento que participei de um coletivo independente cultural de Teresina, seja como uma ajuda na assessoria ou no carregar de algum instrumento vez ou outra. No momento em que a mulher vai criando seu espaço, sua fala, sua opinião é constantemente questionada entre uns e outros, questionam seu intelecto e sua autonomia. Por vezes desmerecem seu trabalho, oferecendo valores irrisórios como pagamento, algo que é comum nas trocas comerciais, independente de sexo, e que se firmam ainda mais quando se é mulher.

Por falar em mulheres que se inserem na cena, volto aos anos 90 e cito o movimento riot grrrl. Em que Kathleen Hanna, pioneira do termo “girl power” e vocalista da banda Bikini Kill desencadeou uma revolução na cena denunciando todo sistema comercial por trás da imagem da mulher no meio artístico e questionou o “lugar” feminino no campo da arte. Isso consequentemente proporcionaria um campo de maior abrangência para a formação de bandas femininas em subgêneros mais consistentes do rock como Black metal e outros mais melódicos como pop rock ou emocore, e também, para o desenvolvimento de discussões feministas.

Atualmente, temos manifestações no cinema durante o Globo de Ouro, através de atrizes de Hollywood que usavam trajes pretos em protesto contra os abusos sexuais relatados durante o ano de 2017 e que ainda aparecem neste início de 2018, a usada hashtag #MeToo. No entanto, vemos também outras manifestações como às de francesas que assinam manifestos em prol do patriarcado na França. Há alguns dias atrás no twitter eclodiu uma hashtag #SerasadosBoysTHE, onde muitas mulheres expuseram casos de abusos sexuais, relacionamentos abusivos, agressões físicas e psicológicas em que sofremos constantemente. E a masculinidade, frágil, descobriu: Nós mulheres conversamos. O que isso teria a ver com a conversa sobre mulheres e a cena musical piauiense? Tudo, basta ler o conteúdo partilhado com as hashtags.

Voltando ao contexto da cena, outro fator, demonstrado em número pela pesquisa do site Pulso, é a ausência feminina em festivais. Há uma diferença enorme nos números de apresentações das mulheres em relação aos dos homens. Apesar de muitas terem seu trabalho até consolidado. Se levarmos em conta a cena teresinense, raras presenças femininas se incluem e lutam constantemente para ocupar esses espaços. Duas dela são Clara Damasceno (baixista na Pancreatite Noise) e Ilana Viviane (baixista nas bandas Garoto Androide e Pulú). O Diretório Literário as questionou sobre carreira, música, feminismo, cena piauiense e os objetivos para 2018 em suas respectivas bandas.

Confira a entrevista:

[Diretório Literário]: Como foi o início da sua carreira na música?

[Clara Damasceno]: Eu fiz aulas de musicas entre meus 12 e 15 anos e ai desde este período, quando ganhei meus primeiros instrumentos me interessei mais ainda, mas sempre gostei. Estou na Pancreatite Noise a 1 ano e 8 meses e é uma coisa que quero levar pra vida.



[Ilana Viviane]: Comecei a tocar em 2011 e tive dois projetos autorais que não deram muito certo, o primeiro se chamava Sex Love com influências de Ramones e Sex Pistols e alguns anos depois montei a Ação Ácida com influências de L7 e Joy Division. Em 2016, recebi o convite da Pulú para uma banda de pop rock alternativo. Ainda em 2016, recebi o convite para fazer uns testes com uma banda autoral chamada Crazy Zone que tinha uma mistura de punk com metal mas fiquei pouco tempo e resolvi focar somente com a banda Pulú. Já em 2017 fizemos muitos shows sendo alguns até fora de Teresina e na metade de 2017 o Joniel Santos me chamou para tocar no Garoto Andróide que apesar de ter uns 5 meses já tocamos bastante nesse fim de ano e já vamos começar as gravações do EP agora em janeiro.



[DL]: Quais são suas influências sonoras?

[C.D]: Tem muitas, incluindo muitas bandas de death, thrash, speed, hc e grind principalmente. Inclusive, a maioria delas sao brasileiras, como Fist Banger, Krisiun,Surra, Velho, etc.

[I.V]: Bom, curto muita coisa tipo Led Zeppelin, Pink Floyd, Pitty, Legião Urbana, Mercenárias, Gram, Cólera, Ramones, Sex Pistols, L7 e outras tantas.

[DL]: Você acredita ser possível viver da música no Piauí?

[C.D]: Acho que é possível em qualquer lugar do mundo. É bem difícil, e todos sabem disso, mas tem pessoas que conseguem, basta esforço, paciência e amor.

[I.V]: Viver de música seria um sonho, aqui no Piauí é muito complicado, é preciso valorizar mais as bandas da cidade.

[DL]: Você considera a cena independente piauiense nociva para as minas?

[C.D]: Apesar de a participação feminina ser pequena, acredito que ela pode sim crescer aos poucos. Eu vejo que tem muitas com vontade, mas tem receio de criticas ou julgamentos (que realmente acontecem muito), mas principalmente com esforço e união entre as próprias mulheres é possível reverter isso.

[I.V]: Acho que a cena esta aberta para todos, se você tem o desejo de tocar vá em frente “faz o que tu queres, pois é tudo da lei” se alguém te critica responda com um bom trabalho. Temos poucas mulheres tocando em bandas de rock em Teresina, mas acho que o problema está mais na falta de coragem de fazer. Nos lugares que já toquei nunca sofri preconceito por ser mulher tocando em banda pelo contrário sempre tive respeito tanto do público como de outros músicos. Acho que a cena esta cada vez mais aberta para as mulheres.



[DL]: Você é feminista?

[C.D]: Não me intitulo, mas sempre lutarei por tudo que acho errado e sou principalmente contra qualquer tipo de agressão feita às mulheres.

[I.V]: Essa coisa de grupos feministas... não sou muito ativa nisso, nem em participar de manifestações ou algo do tipo. Concordo com algumas ideias, mas hoje virou mais moda dizer que é feminista do que buscar ganhar espaço ou qualquer outra coisa.

[DL] Quais mecanismos você ainda acha necessário para dar visibilidade ao trabalho feito por mulheres na música?

[C.D]: Falar mais sobre o assunto de uma forma geral. Mais entrevistas, documentários (que existem, mas são pouquíssimos) e apoio em todos os sentidos.

[I.V]: Acho que se você se identifica com algum instrumento aprenda a tocar, faça músicas e monte uma banda já é um começo. A música está aí, você não precisa pedir permissão para nada. FAÇA VOCÊ MESMO!



[DL]: Atualmente acompanhamos relatos de abusos sexuais e morais que envolvem artistas consagrados em diversos ambitos da arte, no campo independente também. Como você distingue ou não distingue a relação individuo e obra? Existe uma forma de separa-los?

[C.D]: Ter como distinguir tem, mas quando o assunto é abusos sexuais, eu em particular não consigo ver individuo e obra de formas diferentes. Para mim se ele é um babaca na vida social /particular, vai ser em qualquer espaço. No caso de uma banda, por exemplo, reconheço o trabalho dos outros integrantes e tudo mais, mas para mim, se tem um que esta manchando a imagem da banda fazendo merda, tem que ser afastado pra não manchar os outros e sentir o peso que as coisas têm.



[DL] Ainda sobre individuo e obra. Quão efetivo você acredita ser divulgar estes casos de abusos na internet, por exemplo, em um cenário independente?

[C.D]: Acho muito importante, para que as pessoas conheçam realmente quem elas acompanham, assistem ou ouvem. Claro que se você gosta do som e ele te agrada, você ouve, mas é sempre bom estar consciente de tudo.

[DL]: Em uma retrospectiva, o que ano de 2017 trouxe de ganhos nos seus respectivos projetos pessoais na música? 

[C.D]: Foi um ano muito bom, gravamos um novo ep, coletâneas, shows fora da cidade, e os projetos de 2018 já estão mapeados.

[I.V]: Nossa! 2017 foi muito massa toquei em vários lugares tive boas experiências na música e muitas realizações, mas quero mais, que em 2018 seja mais foda e produtivo.

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