quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Casal Piauiense viaja a América de Carro



Arquivo Pessoal/ Ruta 40 nos Andes - Argentina
Em uma manhã de sábado, sentei e conversei com Marcelo Freitas (52) e Benedita Freitas (54) por quase duas horas sobre uma volta à América. Os dois viajaram por 1 ano, 5 meses e 5 dias por todo o continente sob as rodas de um Amarok VW. Essa história nunca poderia ser ouvida inteiramente em uma conversa de uma tarde ou até mesmo descrita em uma única matéria, mas vou tentar descrever um pouco do que eles me contaram aquele dia.

Essa é uma história que teve início com Marcelo e um de seus sonhos de adolescente. Ele era um jovem que vivenciou os anos mais próximos da Geração Beat, esta que proporcionou ideais de liberdade, aventuras e vontade de correr o mundo. Assim como todos nós vivemos épocas com influências desta geração iniciada nos anos 50, o Marcelo pôde sonhar em viajar pelo mundo ou pela América, embalado mesmo que sem nunca ter lido o livro, na obra “On The Road” de Jack Kerouac, grande autor que já foi falado por aqui.

No carro, uma estrutura construída por eles a mão na capota, uma bateria extra para carregar os celulares e câmeras, e muita vontade de conhecer, desbravar lugares novos e viver aventuras. Durante um período de dois anos, Marcelo Freitas e sua esposa Benedita Freitas planejaram pôr em prática um sonho que já vivia no inconsciente dele há 30 anos: viajar. Marcelo conta que quando jovem sempre imaginou viajar pelo mundo “Com o passar do tempo, fui crescendo e vi que a melhor maneira era de carro mesmo. Adolescente acaba pensando de todo o jeito, que poderia ir de barco, avião, mas aí pensei que terminaria não conhecendo as coisas no meio do caminho, digamos assim” comenta.

Arquivo Pessoal/ Monte Fitz Roy - El Chalten - Argentina

Com a chegada da aposentadoria de bancário, em 2016 ele sentiu que este seria o momento ideal para ganhar o mundo e realizar o sonho de menino. Com 33 anos de casados, três filhos e dois netos, o casal é o primeiro do Piauí a viajar de carro aos pontos extremos do continente americano. No dia 05 de Julho de 2016, eles deixaram a capital de Teresina.  “Nós iniciamos pelo Ceará, conhecemos praias belíssimas do Nordeste. Cruzamos o país, descendo pelo litoral”, conta Marcelo.

Uma das formas de hospedagem encontrada pelos viajantes, além de dormir na estrutura montada e nos hotéis, foi a utilização de uma rede social mundial de hospedagem intitulada “CouchSurfing”, espaço onde pessoas de todo o globo podem receber hospedagem, assim como ceder, caso algum membro da rede precise. Encontro com diferentes culturas, empatia, troca de experiências e, claro, economia.

O único apoio financeiro recebido foi o da empresa Wolksvagem, que cedeu gratuitamente a revisão do carro. “Foi o único apoio que tivemos, a isenção da revisão do carro em todo o território brasileiro. A VW do Brasil nos deu total apoio, pois era uma coisa inédita, nunca havia sido feito algo assim por pessoas do Nordeste”, revela o aposentado.

Ao todo, foram 20 Estados percorridos e conhecidos somente no Brasil e 16 Países de toda a América. Entre os lugares visitados, estão a Rota do Fim do Mundo em Ushuaia, Argentina, Parque Nacional da Floresta Petrificada no Arizona - EUA e Parque Yellowstone também nos EUA, Estado do Alaska e muitos outros.

Apesar de não dominar a língua inglesa, Benedita Freitas conta que domina razoavelmente bem o espanhol. “Fiz um curso de Espanhol, mas assim, as palavras são parecidas, cognatas, se aprende. E na prática fica mais fácil”, garante. Marcelo conta que se você souber pronunciar "Quanto custa isso" na língua nativa "já é muita coisa", diz.

Arquivo Pessoal/ Uma senhora que passava na rua em Tarata, cidade do Peru

Durante a viagem, o casal tentava alimentar um diário de viagem no Facebook “marceloeditapelomundo”, no entanto, encontraram dificuldades em atualiza-lo. “Tínhamos dificuldade com a internet, não tinha como acessar às vezes, mas tiramos muitas fotos”, conta Benedita.

Para a aventura, o planejamento também levou em consideração o clima em cada Estado que poderia ser percorrido. “Queríamos chegar em um período um pouco mais favorável no Alaska, por exemplo. O menor grau que tivemos que enfrentar na viagem foi 2° graus negativos”, explica Marcelo. Ao citar o Alaska, não me contive e perguntei sobre o famoso "ônibus mágico" do livro e filme "Na Natureza Selvagem". Eles afirmaram que a história de Christopher McClandless é muito conhecida no Estado, e que muitas pessoas já se aventuraram rumo ao ônibus real, no entanto, eles não obtiveram permissão para ir ao veículo original devido ao grau de perigo do local.

Arquivo Pessoal/ Estado do Alaska

Apesar de reconhecerem a segurança e estrutura dos países que visitaram, eles revelam que foram roubados duas vezes. “Roubaram duas vezes nossos pneus de stepes. A segunda vez foi em um pedágio, um segurança pediu para tirar foto do carro, o que eu já achei incomum. Depois disso, paramos para almoçar em um posto de combustível e abastecer o carro. Enquanto esperávamos a comida, dois carros pararam e fecharam nosso carro. Ficaram desconversando, enquanto os outros faziam o serviço. Estavam nos seguindo desde o pedágio”, conta Benedita.

Entre tantas cidades, estados e lugares visitados o casal conta que a cidade “mais louca” foi Las Vegas nos Estados Unidos. “As mulheres andavam quase nuas, tinham muitas luzes, muita gente. É lindo, mas acho que foi a cidade mais louca que visitamos!”, exclama risonha Benedita.

Arquivo Pessoal/ Las Vegas, em Nevada (EUA)

Uma curiosidade que contaram foi a valorização do real em países vizinhos. “Tirando o dólar, o real muitas vezes era mais valorizado. Para sabermos o valor de compra da moeda do local que estávamos, utilizávamos um aplicativo conversor de moeda”, esclarece Marcelo. Quando questionado sobre quantas notas e moedas foram guardadas, ele revela “perder a conta”.

Arquivo Pessoal/ Moeda colecionadas pelo casal

Por quase 1 ano e meio, o casal percorreu de carro um deslocamento de 83.211 km em seu carro. “Fazendo uma média, dá 160 km por dia em 524 dias de viagem. É muita coisa”, revela o ex-bancário. O trajeto não foi contabilizado, havia dias que a quilometragem chegava aos 500 km por dia, segundo o casal.

Devido a alguns problemas de saúde e problemas familiares, a viagem teve que ter seu fim no Estado do Alaska. Assim, eles tiveram que retornar ao Brasil. “A volta foi mais rápida, passamos por rotas diferentes da ida. Por exemplo, fomos a instâncias de águas termais no Peru, Bocas Del Toro no Panamá e na Chapada dos Guimarães”, conta Marcelo.

Arquivo Pessoal/ Deserto de Sal Solar Grande - Argentina

O casal indica que para quem visa viajar como eles em lugares distantes de carro, a primeira dica é não desistir. “Se a pessoa sonha em viajar e fazendo assim não ‘ler só a primeira página do livro da vida’ como diria Santo Agostinho, ela tem que ter coragem de sair da zona de conforto”, afirma o aposentado. Marcelo e Benedita acreditam que ainda farão algumas viagens pela Europa, mas não por enquanto. “Nós só queremos viajar”, pontua Marcelo.

Arquivo Pessoal/ Cataratas do Iguaçu - Foz do Iguaçu (PR)

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