sexta-feira, 6 de abril de 2018

Enterre Seus Mortos - Ana Paula Maia


Comecei a ler Enterre seus mortos sem nenhuma expectativa. Não conheço Ana Paula Maia, portanto não sei nada sobre seus outros trabalhos, apenas achei a sinopse e o nome do livro interessante. Por felicidade fui surpreendido positivamente, a obra da escritora iguaçuana é uma narrativa curta e poderosa que fala ao mesmo tempo sobre as dificuldades da vida cotidiana e as reflexões existenciais que surgem mesmo naqueles que a soberba intelectual costuma considerar como “gente simples”.

O ritmo da narrativa é tão dinâmico, a riqueza de detalhes do mundo descrito é tão grande e os personagens são tão peculiares que algumas horas depois de começar a ler eu já estava terminando o livro.

Edgar Wilson e o Brasil Profundo

Através de Edgar Wilson a autora nos mostra indivíduos que, mesmo vacilantes, tomam seu destino em mãos e seguem em frente com seus ideais no meio da miséria que é a vida. Basicamente nos é apresentado um Brasil abandonado, bem mais abandonado do que estamos acostumados a aceitar que existe. A situação nesse mundo fictício, que não deixa de ser mero reflexo das profundezas deste país real em que vivemos, é tão precária que nem mesmo os mortos conseguem descansar em paz, porque não há carro disponível para levar suas carcaças até o IML mais próximo.

Esta situação absurda não é muito distante do que já ouvi falar de pessoas que trabalham no IML Piauí. Às vezes a falta de recurso e efetivo é tão preponderante que não tem como se recolher corpos de pessoas que morrem em municípios distantes. Acaba que a família precisa dar um jeito de carregar os seus defuntos até a capital, exatamente como o protagonista do livro acaba fazendo.

O enredo e os personagens da obra

O enredo se desenrola quando Edgar Wilson, que trabalha como removedor de corpos de animais na estrada, após seguir um bando de abutres encontra no meio da mata o cadáver de uma mulher enforcada.

Ele poderia ignorar a situação, um cadáver humano não é problema seu, sua função é recolher animais mortos. Porém após ver alguns abutres atacando o corpo, Edgar Wilson se incomoda e com a ajuda de seu amigo, o ex-padre Tomás, resolve retirá-la do local. A polícia o informa que não tem como levar a defunta até o IML, pois estão sem carro, então Edgar Wilson acaba a armazenando num dos freezers da companhia para a qual trabalha.



Durante toda a obra somos cercados por uma sensação de desolação. Seja pelos animais mortos que Edgar e Tomás recolhem, seja pela prima desaparecida de Nete, pelo passado sombrio de Tomás, pelos místicos religiosos que são vistos fazendo rituais excêntricos a céu aberto ou pelos defuntos que são encontrados no meio da mata.

A morte ronda cada página do livro, entretanto a impressão que eu tive foi de que ela não era algo perigoso. A morte é experimentada pelos personagens como uma letargia, uma condição que já foi aceita e é inevitável. Em alguns momentos observo que a morte é retratada mesmo como uma sensação de nostalgia de algo não dito.

Algum tempo depois Edgar acaba encontrando um segundo cadáver, que também é colocado no freezer da companhia.  A coisa termina de complicar quando o tal freezer dá pane, os corpos começam a feder e ele se vê obrigado a levar pessoalmente os corpos até o IML mais próximo.

Edgar Wilson e Tomás são dois sujeitos que estão tentando sobreviver no meio de tudo isso. Edgar parece ser um homem correto, que mesmo vivendo nessa condição de merda ainda mantém sua fé em deus e segue dia após dia tentando fazer o melhor que pode. Ele tenta ser justo, desde que obviamente isso não o prejudique, mas algumas vezes chega a arriscar o próprio pescoço pelo bem-estar de desconhecidos.

Por outro lado Tomás é um personagem mais curioso. Antes de ir para o seminário acabou matando uma pessoa e por isso foi excomungado. Ele continua agindo como se fosse padre, vive benzendo feridos e mortos que encontra na estrada. Constantemente ele se remete às situações de seu passado sombrio, do qual hora parece esquivo e hora parece orgulhoso.

A escrita dinâmica de Ana Paula Maia

No release enviado para a imprensa Enterre seus mortos é chamado de obra kafkiana. Okay, o enredo tem algo de uma burocracia quase mística que emperra a vida dos personagens, porém acho um erro essa comparação. Ao contrário das obras de Franz Kafka a autora tem uma escrita dinâmica, composta por parágrafos de frases curtas e que deixam o texto com um ritmo bem compassado e acelerado. Ana Paula Maia cria diálogos concisos, descreve ações de modo direto e retrata situações com uma crueza espetacular.

Quando está descrevendo a vida cotidiana de Edgar Wilson ela consegue nos apresentar fatos banais, tais quais triturar os corpos dos animais e mudar a engrenagem da máquina, como se fossem coisas interessantes. Graça às frases curtas e bem encaixadas que criam um ritmo de leitura viciante, mesmo as coisas mais simples soam gratificando enquanto se lê.

Para mim Enterre seus mortos está bem longe da leitura arrastada e enfadonha das obras de Franz Kafka. Elas se tocam sutilmente quanto a alguns pontos da temática, mas se distanciam bastante quanto a forma.



Com o que eu disse nesta resenha fica claro que eu amei Enterre seus mortos. Quando tiver tempo pretendo acompanhar as obras já publicadas de Ana Paula Maia e ficarei de olho em seus novos lançamentos.

Enterre seus mortos é uma obra curta, impactante e de qualidade ímpar. É de coisas assim, profundas e dinâmicas, que a literatura precisa.


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