quarta-feira, 25 de abril de 2018

Finding Paradise: beleza e simplicidade na narrativa de Kan Gao



Escrito, dirigido e parcialmente programado pelo canadense Kan Gao, Finding Paradise é o mais novo jogo do estúdio Freebird Games. Lançado no dia 14 de dezembro de 2017, é a aguardada sequência de To The Moon e A Bird Story. Assim como os jogos anteriores a engine de desenvolvimento continua sendo o datado RPG Maker XP e o gráfico é todo em pixel art.

O jogo tem sido aclamado como uma das experiências mais emocionais que se pode ter jogando videogame. Por outro lado, do mesmo modo que seus predecessores, ele tem sido criticado pela falta de um gameplay “verdadeiro”.
Bem... Isso tem muito pano pra manga, então vamos começar a análise exatamente por aí.

As peculiaridades da Freebird Game e Kan Gao

Finding Paradise é um RPG bastante peculiar, você não tem árvore de habilidades, não tem nível e nem se baseia num sistema de combate para progredir. O que o jogo contém para realmente ser considerado um RPG é a capacidade de podermos interagir com o cenário como se fossemos um personagem vivendo dentro daquele mundo.

Então de gameplay podemos fazer basicamente o seguinte: andamos, conversamos com outros personagens, inspecionamos e coletamos itens e, quando necessário, resolvemos quebra-cabeças (bem simples, por sinal).

Isso acontece porque o objetivo de Kan Gao não é trazer uma experiência de gameplay inovadora ou gráficos excelentes, pelos deuses, até hoje ele usa o RPG Maker XP para desenvolver seus jogos! Mesmo para jogos pixel art esta engine está extremamente ultrapassada, ela não consegue nem mesmo renderizar sprites em Full HD.

Se lermos o “Quem Somos” no site da Freebird Games, encontraremos lá que “é um estúdio de desenvolvimento de jogos indies fundado por Kan (Reives) Gao como um canal pessoal, para contar histórias através da forma de narrativas interativas e música”. Fica claro que o objetivo deles é apenas entreter o jogador com um enredo emocionante e cheiro de reviravoltas, sem quaisquer outras pretensões.

Apenas calhou de terem escolhido a mídia JOGO ELETRÔNICO para chegar até onde queriam. E essa escolha não é à toa, que fique claro, pois fazer um jogo indie de qualidade é muito mais barato e menos trabalhoso do que, por exemplo, um filme, onde sem dinheiro não se chega a lugar algum.


Ele poderia ter escrito livros, o que, pela qualidade dos seus roteiros, suponho que ele já tenha tentado anteriormente sem muito sucesso ou vá tentar em algum futuro próximo. Porém convenhamos: livros, embora provavelmente nunca deixem de perder sua posição como uma grande ferramenta para contar histórias, não são tão atrativos para as novas gerações, estas que cresceram sendo praticamente engolidas por imagens e sons.

A meu ver Kan Gao acertou em cheio ao escolher os jogos eletrônicos como a mídia prioritária de suas narrativas. Mais do que nunca, com a explosão dos jogos indies no começo de 2010, coisas como gráficos de ultima geração, que só podem ser feitos por estúdios bilionários, deixaram de ser obrigatórios para um jogo ser bem sucedido.

O enredo de Finding Paradise

Ao traduzirmos o nome do jogo, Encontrando o Paraíso, temos mais ou menos um resumo de toda a proposta da “Saga Sigmund Corp” (oficialmente é Saga To The Moon, mas não acho que esse nome faz jus a Finding Paradise ou A Bird Story).

Em ambos os jogos interpretamos Dr. Eva Rosalene e Dr. Neil Watts, que através de uma máquina desenvolvida pela Sigmund Corp são capazes de realizar o maior sonho de uma pessoa que está prestes a morrer. Para isso eles viajam nas memórias dos clientes e as modificam, fazendo com que ele viva novamente toda a sua trajetória, mas dessa vez atingindo aquele sonho que nunca conseguiu em vida.

Tudo não passa de uma ilusão, mas o cliente, que está prestes a morrer, é incapaz de distinguir o que foi real ou não. Em Finding Paradise o enredo gira em torno dessa discussão: qual o sentido de trocar a vida que você teve, mesmo com todos os seus erros e falhas, por uma ilusão de perfeição?


O paciente desta vez é Colin Reeds, o mesmo garoto de A Bird Story. Para mim que, apesar da duração muito pequena, adorou o jogo, foi fantástico jogar de novo com aquele personagem e descobrir o que afinal de contas aconteceu com sua vida.

O pedido de Colin, um aviador com uma ótima família e que curiosamente é bastante satisfeito com a sua própria vida, é peculiar: ele quer se sentir preenchido, porém mudando o mínimo possível. Os funcionários da Sigmund tem carta branca para fazerem o que quiserem, desde que não toquem nas memórias da sua família.

Não bastasse a dificuldade de não saberem o que fazer para realizar o desejo do cliente, as viagens de Eva e Neil nas memórias de Colin são um caos. As memórias dele estão interligadas fora de sequência cronológica e, para piorar tudo, alguma coisa está interferindo no trabalho dos dois doutores.

Descobrindo a vida solitária de Colin na sua infância (coisa que já pudemos observar em A Bird Story), encontrando a pessoa que mudou a sua vida e assistindo à construção da sua família, é impossível não se emocionar.


Finding Paradise é uma história maravilhosa sobre amor. Não um amor banal, sexual ou sequer um “amor amoroso”. É sobre um amor atemporal, disforme e o mais verdadeiro que qualquer sentimento pode ser. É um amor que exige abandono e sofrimento, que exige um fim mesmo que jamais termine. Poderia dizer que é uma história de amizade, mas não é, Finding Paradise é sobre o amor no máximo de sua caracterização.

A história é triste e engraçada, tudo na medida e no momento correto. Eu chorei e ri de verdade enquanto acompanhava os conflitos, medos, felicidades e loucuras de Colin. E tudo isso acompanhado de uma trilha sonora maravilhosa, também composta por Kan Gao.

De subplot, preparando terreno para os próximos jogos da saga, temos algumas descobertas estranhas sobre Neil, que anda modificando a máquina da empresa sem que Eva saiba. Aliás, a gente chega a ver um pouco da sede da Sigmund Corp e alguns dos seus outros funcionários. Vem coisa boa por aí, Kan Gao tá preparando alguma surpresa muito mais louca do que tudo que já fez até agora!

Se eu pudesse dar uma dica pra você, seria a seguinte: corre lá e compra o jogo na Steam ou GOG, não vai se arrepender não, apesar da simplicidade dos gráficos é uma das melhores narrativas que tive o prazer de encontrar na vida.

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