terça-feira, 17 de abril de 2018

O Último Reino - Bernard Cornwell



Sempre me indicaram a leitura das Crônicas Saxônicas, principalmente porque as pessoas mais íntimas sabem o quanto eu sou apaixonado por cultura escandinava antiga, sobretudo a religião e a mitologia desses povos do norte. Eu nunca cheguei a dar uma chance para a série porque ela possui uma quantidade gigantesca de livros (são dez até o momento) e porque eu sempre estava soterrado de outras leituras.

Por uma coincidência tecida pelas anciãs que fiam o nosso destino debaixo dos galhos da Yggdrasill, o primeiro livro da saga chegou às minhas mãos e acabei o lendo despretensiosamente. Comecei a ler o Último Reino no Kindle Unlimited por acaso. Não tinha pesquisado qualquer coisa sobre a obra no Google, então eu não sabia que era o primeiro livro da tão aclamada série. Eu sabia que o autor, Bernard Conrwell, era o mesmo, porém imaginei que se tratava de uma obra diferente numa ambientação similar.

A qualidade da narrativa e as emoções que me acometeram durante a leitura me admiraram. Tenho que admitir logo de cara para vocês: a saga (ao menos o primeiro livro) é realmente fantástica como me diziam ser.

O Enredo de O Último Reino

Já que eu não sabia que se tratava da primeira obra de uma série, o que me deixou curioso para ler O Último Reino foi primeiramente o seu título. A sinopse deixava claro que se tratava de um romance histórico sobre a invasão dos dinamarqueses ao território britânico, desde o princípio fiquei fascinado para descobrir qual seria esse último reino e porque ele era tão importante assim.
Porém a resposta para isso não veio de imediato, o livro começa devagar, ambientando de pouco a pouco os seus personagens e o contexto sócio histórico em que eles estão inseridos.

O personagem principal do livro se chama Uthred, um nobre da Nortúmbria de nove anos que vê o seu pai e seus irmãos serem mortos por um grupo de dinamarqueses. Enquanto acompanhava a derrota de seu pai e seus aliados, o garoto entrou em fúria e atacou os dinamarqueses. Foi assim que travou contato com Ragnar, um inimigo que lhe deu uma surra e o transformou em escravo, prática comum nas guerras do século XI.

Ragnar é um daqueles personagens marcantes que merecem uma obra só para si. Ele muda totalmente o ritmo da narrativa e conquista o leitor. Esse Ragnar, no entanto, não se trata do lendário Ragnar Lodbrok, ele é cronologicamente uma geração a frente e na verdade é aliado dos filhos daquele comandante que acompanhamos na série Vikings. Mas ainda assim que homem fantástico: sempre corajoso, alegre e bastante religioso (aos modos dos povos do norte, claro).


Ao longo do tempo Ragnar vai se afeiçoando a Uthred, por ter visto como o garoto era corajoso por tê-lo enfrentado mesmo quando sabia que não tinha qualquer chance de vencer e por notar o seu desprezo pelo cristianismo. Apesar do carinho, há também um interesse mais prático no interesse de Ragnar, pois o dinamarquês usava o fato do garoto ser nobre como uma barganha em suas negociações com os líderes da região conquistada.

Em o Último Reino basicamente acompanhamos as mudanças na personalidade vacilante de Uthred ao longo do tempo. Suas ambições, sonhos e alianças estão constantemente mudando, às vezes por vontade própria e às vezes porque os fios do seu destino que o levavam em outra direção do que a que ele desejava.

Catolicismo vs Paganismo

De nobre católico da Nortúmbria Uhtred se torna um pequeno pagão de espírito dinamarquês. Enquanto morava na fortaleza de Bebbanburg com o seu pai (também Uhtred), ele era obrigado a aprender a ler e a rezar, pois sua madrasta queria que ele se tornasse padre. O garoto queria brincar, aprender a lutar, ver o mundo a cavalo e não ler e rezar, por isso foi criando um ranço do cristianismo.

Ao passar a viver sob o mesmo teto que o earl Ragnar, mesmo que como escravo, ele se sentia bem mais feliz do que era como nobre saxão. Agora ele era livre para fazer o que queria, não havia sermões sobre pecado e não apanhava porque não conseguia ler como esperado pelos padres. Ele se sentia como parte dos dinamarqueses e com o tempo realmente se tornou parte da família de Ragnar.

Uhtred se lembrava de ter visto seu pai sorrir poucas vezes ao longo dos anos, ele sempre fora um homem duro e distante. Ragnar era diferente, quando fora de batalha estava sempre alegre e cercado de companheiros que o respeitavam e admiravam. No campo de batalha ele era um inimigo terrível que fazia até o guerreiro mais corajoso tremer, entretanto na vida cotidiana, em sua casa, o earl Ragnar era o pai que Uhtred nunca teve.

Foi Ragnar que apresentou a Uhtred os deuses do norte: Thor, Odin e Hoder. Diferentemente do deus cristão, que deixou seu filho morrer na cruz e pedia dos seus fieis submissão total, os deuses do norte guerreavam entre si, faziam sexo e acumulavam riquezas.

A todo o momento o livro parece querer fazer o seguinte contraste entre as religiões: o paganismo escandinavo era uma religião focada no presente e o cristianismo é uma religião focada no futuro. No pano de fundo o conflito dinamarqueses vs saxões é um paganismo vs cristianismo.

Embora acreditassem nos seus deuses os homens do norte não esperavam que eles resolvessem os seus problemas, eles os ouviam através de vários sortilégios, mas sabiam que tinham que conquistar com suor e sangue aquilo de que necessitavam.

Por isso no começo das invasões vikings era tão fácil para os dinamarqueses saquearem mosteiros e invadirem as cidades. Enquanto a religião deles incentivava os homens a lutarem até o fim por aquilo que queriam, até porque precisavam morrer honradamente em combate para irem ao Valhalla lutar com Odin na guerra do fim dos tempos (o Ragnarok), os padres e habitantes das vilas invadidas apenas esperavam que através da reza deus parasse os inimigos ou aceitavam que eles eram uma punição divina por seus pecados.

Este era também o motivo da sexualidade mais liberta dos povos do norte, em vez de ser tratada como pecado a sexualidade era parte da vida que deveria ser aproveitada antes que a morte, essa que sempre chegava bem cedo, pudesse levar o homem para longe dos seus amigos e entes queridos. Para isso existiam rituais sexuais, sacrifícios, festividades com bebedeiras que duravam dias e assim por diante.

Alfredo, o redentor do cristianismo

No livro o cristianismo só começa a mudar sua feição, dando aqui e acolá mostras de superioridade em relação ao paganismo, quando Alfredo, rei de Wessex, entra em cena. E os motivos para sua superioridade são exatamente aquilo que Uhtred desprezava na religião.

Alfredo é uma espécie de anti-Ragnar: sisudo, metódico e devoto. A princípio os dinamarqueses achavam que ele era fraco, porque fisicamente era pálido e esguio, além de que falava toda hora sobre pecado, mas Alfredo tinha um poder que até então era subestimado por todos, inclusive por seus compatriotas: inteligência organizacional.

O tal Último Reino do título do livro era Wessex, o único território saxônico que ainda não havia sido dominado. Para os dinamarqueses a vitória era eminente, eles não haviam sido derrotados uma única vez e tinham em movimento o maior exército de sua história. Além do mais, Alfredo era um rei novo, débil e patético como todos os outros cristãos. Mas, oh boys, as coisas não aconteceram como esperado e pela primeira os dinamarqueses perderam uma batalha no mano-a-mano.

O que ocorreu foi que Alfredo usava um sistema de comunicação por cartas que fazia com que suas ordens fossem seguidas fielmente pelos seus generais de guerra. Mais do que isso: ele conseguiu organizar e orquestrar a movimentação de suas tropas como nunca visto antes, assim tomando posições mais favoráveis para o combate, encurralando os inimigos, dividindo as tropas que poderiam derrotá-lo e assim por diante. O que basicamente Alfredo fez, até o final de O Último Reino, foi minar a confiança que os dinamarqueses tinham de que o destino deles era dominar os saxões!

Antes mesmo da derrota que abalou a moral dos dinamarqueses Uhtred começou a examinar se era realmente um dinamarquês, até porque constantemente tinha sua lealdade questionada por líderes importantes do exército. Depois do conflito até mesmo sua fé nos deuses do norte começaram a se abalar e ele, embora com desprezo, começa a prestar mais atenção no que realmente se trata o deus cristão. Depois de algumas reviravoltas surpreendentes que não vou dizer para não estragar todas as surpresas do livro, o garoto, agora crescido e ainda pagão, acaba fazendo parte das tropas do rei Alfredo.

O importante nesse segundo momento do livro é notar como o cristianismo é retratado como essa religião que permitiu as vitórias iniciais de Alfredo, pois na infância todos os nobres saxões eram obrigados a aprenderem a ler, para entrarem em contato com deus através da bíblia (e também para ajudarem a manter viva a história dos santos). Isso possibilitou que ele pudesse criar uma rede de informação com espiões e batedores que espalhavam discórdia nos reinos dominados pelos dinamarqueses e que ajudavam a decidir as movimentações das tropas de Wessex.

Não que os dinamarqueses não fossem inteligentes. Pelo contrário, eles eram os melhores naquilo que faziam: guerrear e pilhar. Porém não tinham a organização necessária para coordenar operações com tropas gigantescas e tinham excessiva confiança na sua vitória.

Minha conclusão sobre O Último Reino

Pelo fato de anos atrás ter lido alguns péssimos romances históricos, eu tenho um pouco de preconceito com o gênero. No entanto O Último Reino é um livro muito gostoso de ler, você começa a acompanhar a vida de Uhtred e não quer parar, fica curioso para saber quem são os novos personagens que vão aparecendo e o que é que vai acontecer.

Inclusive isso que é o mais maravilhoso no livro: tem MUITOS personagens bacanas. Não deu para falar de quase nenhum nessa resenha porque se não o texto ia ficar muitas vezes mais extenso do que já ficou, mas vou citar alguns líderes do exército dinamarquês para dar uma palhinha de quem aparece para as pessoas que amam a série Vikings: Ivar, sem ossos; Ubba Ragnarsson e Halfdan Ragnarsson.

O Último Reino é um excelente livro para quem gosta de obras com uma pegada histórica ou curtem narrativas sobre guerras. Temos discussões filosóficas, religiosas e históricas, todas atravessadas por um personagem que vai evoluindo durante o passar das páginas.

Se você, assim como eu, curte cultura nórdica, pode pegar o livro para ler que não vai se arrepender. O livro é muito rico na descrição de rituais e práticas do que se supõe que era a vida na época das invasões dinamarquesas. E se você não sabe nem o que é, pode pegar o livro também que tem romance e muita porrada!

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