terça-feira, 29 de maio de 2018

Jeremias - Pele: a perspectiva de um personagem do Mauricio de Sousa sobre racismo


A Mauricio de Sousa Produções desde 2012 tem lançamentos de quadrinhos com personagens da Turma da Mônica voltado para um público adulto. A principal característica é a liberdade em que os artistas convidados têm de poder trabalhar de uma forma bem pessoal o personagem escolhido. Contudo, o editor Sidney Gusman tem o cuidado de esclarecer aos autores que os livros podem ser lidos por qualquer faixa etária, assim a crição leva isso em consideração.

Jeremias - Pele é a primeira Graphic MSP protagonizada por um personagem negro e esse fato fez com que a produção tivesse tido o cuidado com a temática e com a forma como ela seria mostrada ao leitor. A história começa quando, na sala de aula de Jeremias, a professora propõe uma feira das profissões. O garoto se frustra ao saber que não pode escolher ser astronauta, ao perceber que a turma debocha da sua escolha e de que ele teria que apresentar a profissão de pedreiro.



A partir daí, Jeremias começa a se indagar sobre as diferenças que ele e as pessoas com o seu mesmo tom de pele são tratadas na sociedade. Ao perceber as indagações do menino, sua família percebe a necessidade de uma conversa para explicar à ele o porquê de tamanha diferenciação. A questão passa a ser conformar-se com o sofrimento ou lutar contra aquilo. Mas como uma criança pode agir perante a uma situação em que o preconceito é visível?

A obra vai além de ser um "dramalhão", os autores conseguem mesclar um tom entre humor e tragédia afim de deixar a história mais interessante. O que chama a atenção são as situações corriqueiras e sutis em que há o preconceito na forma como as pessoas são abordadas pela quantidade de melanina que ele possui: as piadinhas ofensivas, os modelos de profissão ou de beleza, a forma de tratamento.

Eu me identifiquei demais com a situação em que a garota, ao olhar pro Jeremias, segura mais forte a alça da bolsa, demonstrando insegurança. O olhar de medo do outro está muito presente na vida do negro e o Jeremias vê como a sociedade reage a esse medo e o quanto isso parece ter sido naturalizado. Quanto mais escura for a sua pele e quanto mais características de um estereótipo você possuir, mais intensa será a reação das pessoas.


Eu senti um alívio ao ler Jeremias - Pele, por estar ali naquele quadrinhos coisas que eu vi ou observei acontecer. Talvez para quem nunca tenha percebido as sutilezas do racismo no Brasil, ache a obra muito forte. Por isso a importância da representatividade. A dor de alguém que é diferente (?) da gente nunca pode ser sentida, ela pode ser compreendida. Para isso, essas pessoas precisam expressar as suas experiências e a gente precisa estar atento a ouvir e mudar a forma como nos comportamos. Um outro aspecto que me chamou a atenção é o fato do gibi não ter uma narrativa de vítima e algoz; os fatos ocorrem sem que nem as crianças e nem os adultos entendam um mal que causam. As reflexões e os olhares de Jeremias é que nos faz entender o que machuca.

Jeremias - Pele é uma obra de ficção mas que se confunde com situações reais vividas pelos autores. Rafael Calça escreve o roteiro com uma grande sensibilidade e tem uma narrativa bem dinâmica seja no que o quadrinho está focando, na mudança da diagramação ou nos diálogos em que as falas são adequadas para a fala de cada personagem. Jefferson Costa faz os desenhos que conta com muita expressidade e movimento. Os seu traço tem bastante personalidade e na minha leitura eu sentia uma sensação de deja vu, até eu ver que ele é o desenhista da Liga de DJs Paladinos da MTV Brasil e das demais animações.

Ao final da leitura da obra tive alegrias e decepções com ela. Por se tratar de um gibi destinado a adultos, Jeremias - Pele poderia ter aprofundado mais a questão. Eu percebi que os personagens agem com racismo indireto meio que "sem querer". Eu até concordo quando se mostra a relação entre as crianças, porém no núcleo de personagens adultos, poderia estar mais presente o pensamento de Rafael Calça. A obra seria melhor se a intensidade do final estivesse mais presente no decorrer da obra. Apesar disso, Jeremias - Pele é uma obra essencial. Um material daqueles que a gente diz: "Senta aqui, vamos conversar sobre isso". Uma obra que rebate as críticas de que racismo é "só vitimismo" e propõe uma maneira da gente lidar melhor com algo tão antigo mas ainda tão presente. Enfim, ainda que não esteja entre as grandes produções de quadrinhos do ano, a hq possibilita uma discussão necessária num país onde cada vez mais pessoa vê um sofrimento de 500 anos como "mimimi".


Obra disponível na Amazon.

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