quarta-feira, 16 de maio de 2018

Meio Sol Amarelo: Sobre Guerras e Culturas Silenciadas


Escrito por Chimamanda Adichie, Meio Sol Amarelo é um daqueles livros de ficção que se passam em um fundo de realidade. O livro foca na vivência de três personagens (Olanna, Ugwu e o inglês Richard) que estão na Nigéria durante o conflito que ficou conhecido como Guerra de Biafra ou Guerra Civil da Nigéria. O conflito ocorreu no sudoeste do atual território da Nigéria, entre 1967 e 1970.

Bem, se você espera que eu fale mais do que isso sobre a história do livro, pode parar a leitura então. Resumindo, isso não é uma resenha, é uma reflexão, pronto, agora pode continuar a leitura.

Meio Sol Amarelo machuca o leitor por vários motivos. Primeiro, você acompanha todo o retrato de uma guerra de uma maneira bem real. Segundo, você se pergunta como nunca ficou sabendo de nada disso. Terceiro, você se envolve tanto com as personagens que torce por elas com todas as forças. A narrativa do livro constrói sentimentos, à medida que nos faz acompanhar a construção dos envolvidos e seus relacionamentos, e logo depois nos faz perder o fôlego em meio a tanto sofrimento e só querer que aquela guerra acabe.

Mas o que me deixou mais intrigada foi como um conflito que deixou algo em torno de dois milhões de mortos conseguiu praticamente ser apagado da história. Isso me lembrou de como a História é escrita.

O que devemos ter sempre em mente é que a história seleciona, simplifica e organiza os acontecimentos/fatos (ver Como se escreve a história – Paul Veyne). Ela faz com que um século caiba em apenas um parágrafo e pode fazer também com que 1 ano se transforme em 50 páginas, por exemplo. Pode parecer, para o leitor, que nada ocorreu naquele período ou ao mesmo tempo que determinado lugar tem “muita história”. E assim, toda a historiografia da África, pelo menos no Brasil, se resume a muito pouco.

Ao procurar na internet por informações acerca da Guerra da Biafra, a gente encontra no máximo três parágrafos, ao mesmo tempo em que encontramos uma lista na Wikipedia de mais de 200 conflitos que ocorreram no continente africano. Como um conflito que mata dois milhões de pessoas pode se resumir a 3 parágrafos?

Foi aí que eu percebi que vidas negras não importam. A ideia que se tem sobre as pessoas que moram no continente africano é que são iguais e tudo o que acontece lá é só sofrimento sem sentido e sem importância. A percepção do mundo sobre eles ainda é estereotipada, como se fossem povos primitivos, sem cultura, selvagens sem inteligência e sem valor para a humanidade. 

Com minha leitura de Meio Sol Amarelo, livro escrito por uma nigeriana (com mestrado em estudos africanos pela universidade de Yale) com produção baseada em pesquisas e entrevistas com pessoas que passaram pelo conflito, pude compreender que não é somente isso. Tantos conflitos naquele continente também ocorrem por existir uma diversidade cultural gigantesca e por estarem esquecidos ali.

Além de permitir a compreensão de tudo isso, a leitura vale muito a pena porque o livro causa todo tipo de emoção. Você vai sentir raiva, alegria, tristeza, ódio, saudade, esperança, amor... É uma leitura que tem muito a acrescentar. Sem falar no que ela representa para os dias atuais, né? Já que a autora é uma mulher negra, africana e femininista. O livro discorre sobre outras histórias possíveis sobre as pessoas que moram no continente africano. Há mulheres poderosas, pessoas com doutorado vivendo no meio da guerra, pessoas ricas, inteligentes, esforçadas e trabalhadoras... Coisas que, no senso comum, as pessoas julgam não existir naquele continente esquecido.

Para concluir, eu só quero pedir isso pra vocês: leiam Chimamanda Adichie. Ouçam o que ela tem a dizer (tem vários vídeos legendados no YouTube). Se você não gosta de livros longos, ela tem alguns curtos também: Para Educar Crianças Feministas e Sejamos Todos Feministas. Apenas leiam, ok?

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