terça-feira, 22 de maio de 2018

Merlí: uma joia escondida na Netflix


Merlí é uma série de comédia dramática espanhola produzida em 2015 pela TV3. A série teve os direitos de exibição comprados pela Netflix em 2016 e, apesar disso, ainda não tem o alcance que merece ter. Digo isso porque, por exemplo, uma série como Santa Clarita Diet (na minha opinião, muito ruim) está com mais de 8000 “já vi” no Filmow, enquanto Merlí tem apenas 1855 no mesmo site. Historicamente, os EUA adquiriram uma vantagem em termos de produção em relação ao resto do mundo e basicamente qualquer coisa feita lá acaba tendo um alcance maior mesmo, mas não quero entrar nessa discussão, apenas apresentar essa série maravilhosa e fazer com que mais pessoas comecem a assistir conteúdo relevante.

An unconventional high school philosophy teacher upsets a fey parents and staff, romances others and inspires all his pupils, including his gay son. (descrição da Netflix sobre Merlí)

A série gira em torno de Merlí - um professor de filosofia nada tradicional – e o relacionamento dele com os adolescentes e professores da escola em que trabalha. Engana-se quem pensa que a série aponta em uma só direção quando lê a sinopse superficial que a Netflix costuma colocar em seus conteúdos.

Sobre as emoções, você vai se divertir e se emocionar na dose certa. Sobre as reflexões, você vai ver sobre bullying, gravidez na adolescência, sistema educacional, homossexualidade, transexualidade, diferenças de classes, problemas com os pais (pais que não ligam muito para os filhos e pais que controlam demais) e todas essas discussões com uma linha de filosofia por todos os episódios.



Imagine uma malhação em que as personagens falam catalão, fazem sexo, fumam maconha, ficam bêbadas e vão parar no hospital, um professor que não tem papas na língua e discute com todos e com discussões filosóficas pautadas em filosofia de verdade – afinal, cada episódio foca em um filósofo ou em algum conceito da filosofia. Então assim, nós vamos ficando um pouquinho mais inteligentes ao final de cada episódio. Nós não temos o puro entretenimento; temos um entretenimento inteligente, mas sem firulas.

Para que vocês tenham um pouco de ideia do que eu to falando, os nomes dos episódios da primeira temporada da série são: Os peripatéticos, Platão, Maquiavel, Aristóteles, Sócrates, Schopenhauer, Foucault, Guy Debord, Epicuro, Os céticos, Os sofistas, Hume e Nietzsche. Mas, por favor, não pensem que a série é chata por causa disso. Eu sei que alguém aí deve tá pensando “por que que essa louca acha que eu quero assistir série de filosofia? Já basta a escola/universidade”, mas não é assim, eu juro que não é chato porque a série nos faz pensar em pequenos detalhes do nosso cotidiano a partir de percepções filosóficas. Além disso, a grande quantidade de personagens e assuntos faz com que a gente se identifique com pelo menos um deles. Eu, por exemplo, sempre tive uma mãe controladora que queria decidir todos os meus passos, então na hora que eu vi ali na série um adolescente passando pela mesma coisa que eu, logo me senti representada, foi quase como ver a minha história na televisão. Então se você quer mais um motivo pra assistir Merlí, tem esse: você vai ver a sua própria história na televisão.

No episódio com título “Foucault” (episódio 7), logo no começo os alunos começam a falar de um dos colegas de classe se referindo a ele como “estranho”, “anormal”, ao que Merlí responde “que papo é esse de normal? O que querem dizer com normal? Outro dia, Bruno me disse: 'Normal é normal, papai. É normal' [...] O filósofo Michel Foucault [...] falava do conceito de normalidade. Poderíamos dizer que “normal” é o que temos de fazer. É o comportamento que uma sociedade considera correto. Mas o que aqui é normal talvez não o seja em outro país. O que agora achamos normal talvez não fosse há dez anos, e talvez não seja no ano que vem. Foucault era homossexual. Na época dele, a homossexualidade era considade anormal. A exclusão social que ele sofreu o fez por todo o talento dele a serviço de uma causa que é mais atual do que nunca: a confusão entre o que é normal e o que é correto. Por que quem determina os limites da normalidade? Ou seja, entre normalidade e anormalidade? Eu não sei. Vocês acham muito normal o que estão fazendo com a Sagrada Família, por exemplo?



Essa breve introdução sobre as ideias de Foucault traz um assunto que permeia todo o episódio: a homossexualidade de Bruno, filho de Merlí; o pai o aceita, mas ele mesmo não se aceita e morre de medo da sociedade. E, assim, temos um episódio cheio de diálogos voltados para esse assunto de um modo bem “vira real” ao mesmo tempo em que somos apresentados a um dos maiores filósofos da humanidade.

Posso dizer que em três temporadas de Merlí (cada uma com 13 episódios, exceto a terceira, que tem 14 episódios) aprendi muito mais sobre filosofia do que em toda a minha vida acadêmica (4 anos de graduação + 2 anos de mestrado). E aprendi de um jeito divertido e empolgante, que não me exigiu qualquer leitura chata.

Em relação a questões técnicas, a série também não deixa a desejar. Os atores são todos excelentes (melhores do que muitos famosinhos americanos por aí), cativantes, fotografia e trilha sonora não são marcantes, mas também não apresentam pontos negativos. Realmente o que ganha é o roteiro, que é mesmo apaixonante. Então se você está cansado de ver as mesmas indicações de sempre na Netflix, está com vontade de sair do óbvio, Merlí é uma excelente opção.

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