quinta-feira, 7 de junho de 2018

[Resenha] A Alegria da Festa é O Que Me Resta - Fábio Crazy


Passados dois anos estou de volta ao Diretório Literário, um pouco porque disse que voltaria, segundo porque o Agostinho está ocupado preparando o novo layout do site para em breve e terceiro porque a Gabrielle tá perdida no mundo.
Volto com o primeiro texto falando sobre a banda piauiense Narguilé Hidromecânico, mais especificamente a respeito da biografia escrita pelo Fábio Crazy, membro fundador da trupe, onde conta a história por trás dos dois primeiros álbuns do grupo. Para mim soa como uma volta estranha minha ao site falando da banda, irônica, pois a última fase do Narguilé (a banda se encontra inativa no momento) foi apenas um retorno para fazer shows fáceis, levantar uma grana e é um lance que não me apraz, apesar de que se um dia eu precisar cair nessa seara, ok, vida, você venceu. Se bem que, se até as bandas grandes fazem isso, por que não o Narguilé, né?!
O Fábio tem ciência desse meu pensamento e como bons adultos que somos não temos problema nenhum sobre isso, pois ao passo que é algo que eu não curto, entendo as motivações. Dito isso, até trabalhamos juntos pouquíssimo tempo atrás quando ele foi um dos últimos integrantes do finado coletivo cultural Geração TrisTherezina, que viabilizou o lançamento do disco de seu atual projeto musical, o Eletrique Zamba, em parceria com o guitarrista Lívio Nascimento (que esse ano lançou o disco solo Janeiro, ouçam!). É uma posição bem pessoal mesmo, o Narguilé que me apetece é o que possui dois discos engavetados, que, se lançados, podem apresentar novas pretensões sonoras ou a continuação de uma musicalidade que vinha se construindo de maneira bem sólida.
O lançamento da obra “A Alegria Da Festa É O Que Me Resta”, que versa sobre os álbuns Narguilé Hidromecânico (homônimo, 1998) e Poeirão, é marcado pela chegada destes discos às plataformas digitais, o que é motivo de louvor, tendo em vista que bandas piauienses contemporâneas ao Narguilé e mesmo antecessoras e tristemente algumas sucessoras sequer uparam seus trabalhos ao YouTube, o que atualmente é muito fácil de se fazer e tal facilidade acaba depondo contra as próprias bandas, já que acaba também nos dando indicativos de porquê os artistas daqui não foram pra frente, muito deles e bem, não preciso citar ninguém, aqui o povo se ofende fácil, leva tudo pro pessoal e a treta nem valeria a pena, pois cachorros mortos.
É indiscutível demais a passagem do Narguilé Hidromecânico pela cena na Chapada do Corisco, sua importância e influência para as bandas que surgiram depois. Acredito, inclusive, que é impossível falar na recente música popular piauiense sem citá-los, dado o alcance de suas obras, shows em diversos estados, apresentações em programas e festivais consideráveis.
Situando Narguilé entre as três principais bandas (de cunho mais independente, nicho mais rock, pop) do estado, teríamos Megahertz, Narguilé e Validuaté. A primeira está ligada a cena mais pesada do metal e o metal no Brasil nunca galgou grandes aparições. A terceira vem alterando sua linguagem sonora e direcionamento de público, o que me impede de no momento enxergar coesão. Aqui entra o Narguilé, quem conhece ou quem vai ouvir pela primeira os dois primeiros álbuns da banda, nota facilmente uma comunicação contínua, fluída e orgânica entre os trabalhos, o que, creio, facilita na hora de pensarmos/lembrarmos a identidade da banda.
Com o livro fica fácil perceber como o Narguilé impulsionou, influenciou, propiciou o surgimento de novas bandas em Teresina, muito porque em determinado momento montaram um estúdio para ensaios e outra parte por toda repercussão da banda. O grupo ‘Os Caiporas’ surgiu no núcleo do estúdio do Narguilé, Banda Sapucaia surge influenciada sonoramente por Narguilé, Conjunto Roque Moreira também e por aí vai.
Mas bem, indo ao livro, por se tratar de uma biografia memorialística, a narrativa vem com força, segue objetiva, o que transmite uma sensação de leitura rápida. Algumas passagens são engraçadas, tem umas tiradas do Fábio, uma linguagem repleta de termos maconheirísticos e chavosos que também garantem um fôlego ao leitor.
Para narrar os acontecimentos que levaram à gravação dos dois álbuns, Fábio inicia falando da sua juventude e os anos de ensino médio na escola, onde conheceu amigos que tocavam, professores de Literatura que tocavam, o que o aproximou dos instrumentos e de bandas como DFC, Ratos de Porão, Racionais MC’s e Bob Marley, até então desconhecidos para ele. Isso era começo dos anos 90 em Minas Gerais, onde Crazy estudou. Pela metade da década Fábio volta a Teresina, inicia um curso superior e logo se frustra com os estudos. Assim como um de seus professores faltava na universidade para puxar ensaio de escola de samba, o adolescente decide também abandonar o curso para investir sua energia jovial em um projeto musical.
Assim nascia o Narguilé Hidromecânico, no lendário Quintal dos Galvão, local com grande movimentação juvenil dado às amizades dos filhos do seu Galvão. Crazy era muito amigo de Galvão Júnior, tiveram bandas juntos, compuseram músicas juntos entre baforadas, som e farras. Numa destas inventaram de criar um narguilé artesanal usando balde e naquela onda surgiu o nome da banda.
Fábio conheceu os integrantes da primeira formação do grupo ali no Quintal dos Galvão, zona Norte de Teresina. Júnior B, Nando Chá e Cláudio Hammer, respectivamente o baixista, guitarrista e baterista. Fábio assumia os vocais. Após alguns shows despertaram o interesse de um rapaz chamado Bernardo Paulo, que viria a ser o produtor da banda e que ainda cobriu alguns shows como baterista, quando a banda ficou descamisada na zaga. Com a formação, o grupo montou um set e fez shows pela cidade. Foi num show vazio que surgiram algumas criaturas do além, bateram um papo com Bernardo enquanto a banda performava e sumiram. Era a trupe de Hermano Vianna, irmão de Herbert Vianna.



Hermano estava percorrendo o Brasil inteiro fazendo um mapeamento de bandas, propostas sonoras que estavam emergindo Brasil adentro e souberam daquele show do Narguilé através de uma matéria publicada no Jornal Diário do Povo, escrita pela jornalista Natacha Maranhão. Após tocar para ninguém como quem toca para cem mil, o Bernardo os chamou de lado e falou que a banda gravaria num estúdio móvel do projeto do Hermano no dia seguinte e assim fizeram. Dessa gravação surge o Narguilé Hidromecânico. Entre as faixas mais conhecidas estão Forró do Molambo e Maluco Regulão. Esta última merece um parêntese. Maluco Regulão foi upada no youtube em várias contas e com os títulos mais diferentes possíveis. Nos resultados do Youtube encontrei uma versão com mais de 70 mil visualizações e outra com mais de 60 mil.
No livro Fábio conta alguns causos envolvendo a música, como da vez que foram tocar fora do Piauí e após o show comentaram com a banda que eles haviam tocado uma música cover, a Maluco Regulão, pois ‘era’ de um grupo lá da região. A música rodou tanto que em diversos momentos a Narguilé passou por questionamentos sobre a verdadeira autoria da canção. Ou seja, a música ganhou vida própria e fugiu do controle de Fábio. Até hoje toda banda de reggae do Piauí toca essa música nos shows.
Narguilé Hidromecânico, o álbum, foi gravado da maneira mais orgânica possível como num ensaio aberto, fato pelo qual Fábio se ressente da qualidade final do disco no tocante a mixagem e masterização. Após isso, Hermano e sua trupe cairam na estrada. Meses depois os técnicos de sua equipe enviariam as canções finalizadas. Com o álbum em mãos e o apoio da Barulho Discos, loja de Teresina que apoiou o Narguilé com a função de distribuidora, a banda caiu na estrada, indo parar na escalada para o Rock in Rio. Na apresentação para a escalada quebraram todas as regras e foram desclassificados, saíram, porém, orgulhosos por terem percebido que o festival era mais para divulgar o Rock in Rio que de fato descobrir novas bandas. Ali, pelo menos entraram em contato com uma produtora que viabilizaria a gravação do segundo disco da banda, com melhor qualidade e bem mais coeso. Todavia, um fato minou as forças da banda.



A essa altura, a Narguilé conquistara grande visibilidade em Teresina, havia feito shows em espaços culturais históricos como o antigo Bar Elis, Teatro 4 de Setembro e foram entrevistados por jornalistas locais como Cinthia Lages e Maia Veloso, que na década de 90 comandava um dos programas de auditório de maior audiência da Tv Meio Norte.
Além disso, haviam feito diversas viagens onerosas e cansativas para o Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Fortaleza, São Luís, que causaram desgaste, saída de integrantes até chegarem a uma nova formação, maior que a antiga, o que também era dispendioso para as viagens. Para o segundo disco, a banda já contava com DJ e dois percussionistas, Márcio Bigly substituiu o primeiro guitarrista, Nando Chá. No livro, Fábio detalha todas essas fases e suas motivações. Além de fazer um faixa a faixa dos dois discos, reconhecendo música machista retirada do repertório, entre outras coisas que só a leitura do livro permite, não posso dar tanto spoiler.
Em uma dessas viagens para fora do estado conheceram Elza Cohen, detentora do selo que lançou o Planet Hemp e produtora de festivais importantes no Centro-Sul do país como o SuperDemo. Através dela conheceram o Negralha, que anos depois ficaria mais conhecido como o DJ da banda O Rappa. Gralha colaborou bastante durante a gravação do Poeirão, segundo álbum.


O fator que, a meu ver, deu uma rasteira na banda foi a morte de Bernardo. Após encerrar a divulgação do primeiro disco, a banda acertou com Elza de voltar dali a alguns meses para gravar o segundo álbum, pois a mulher seria a produtora do disco. Nesse meio tempo, os músicos voltaram para Teresina e Bernardo decidiu que ia participar de um festival de tatuadores fora do Brasil, até mesmo para levantar uma grana que pudesse investir na banda. Foi dessa viagem que a turma foi pega com a notícia de que Bernardo havia sido encontrado morto após cair da janela de um hotel. A história nunca foi esclarecida de modo detalhado. Acontece que o Narguilé só retornou para gravar após a ressaca da notícia. Durante as gravações, Elza começou a produzir outro artista e fez com que a turma de Teresina repensasse sua volta para o Nordeste.
Em Teresina, a turma esmoreceu sem grana para mandar prensar o novo trabalho. Fábio foi se envolvendo com dança contemporânea e fez algumas viagens para apresentação das performances nas quais participava. Nos tempos livres ia atrás de contatos, de produtores, esteve com o Miranda, mas conseguiu a distribuição do Poeirão com o ex-sócio da Tratore. Mesmo com o disco em mãos, o futuro do Narguilé parecia incerto e Fábio anunciaria aos amigos que deixaria o grupo em breve. Iria para a Holanda trabalhar em um espetáculo criado pelo artista Marcelo Evelin.



A Alegria da Festa É O Que Me Resta é um livro importante para preservar a memória de uma banda que abriu precedentes para tantas outras em Teresina. A historiografia musical piauiense é carente de acervo, de imagens, de arquivos, gravações e esta biografia juntamente com a chegada dos discos aos streamings vem para minimizar um pouco dessa nossa falha.


Você pode comprar o livro em:
https://www.clubedeautores.com.br/book/256445--A_alegria_da_festa_e_o_que_me_resta#.WxnAXRNEqUk

E ouvir as músicas da banda em:
https://open.spotify.com/album/0ZDvPphYclLYuqCw3PMErA
https://open.spotify.com/album/5w0j7cL5tGczRB78eYaleq

Resenha escrita por Valciãn Calixto

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