segunda-feira, 11 de junho de 2018

O Amor a Tudo Conquista: O Fim de Sense8


Sense8 foi cancelada em Junho de 2017 graças ao custo exorbitante de gravar em vários países diferentes ao mesmo tempo e por não terem conseguido atingir o público alvo estipulado pela Netflix para considerar o investimento como rentável. Após campanhas desesperadas organizadas pelos fãs nas redes sociais, principalmente no Twitter e Reddit onde conseguiram um abaixo assinado com mais de 500 mil assinaturas a favor do retorno da série, no fim do mesmo mês foi anunciado um episódio extra para fechar o enredo de Sense8.

A necessidade de tal final era decorrente do fato de que a segunda temporada de Sense8 terminou num cliffhanger muito expressivo, em que um dos personagens principais da série foi capturado e torturado pela Organização de Preservação Biológica (BPO, no original), um grupo multigovernamental de vilões que tem como objetivo destruir o homo sensorium para que o homo sapiens continue prevalecendo como a raça dominante (é mais complexo do que só isso, há um programa militar de “zumbis” controlados por sensates de maneira remota, mas em linhas gerais é o que foi dito: sapiens vs sensorium).

Quase um ano depois finalmente o episódio final, cujo título se chama “Amor Vincit Omnia”, ficou disponível na Netflix e oh boys, é realmente uma maravilha o que Lana Wachowski foi capaz de entregar em pouco mais de duas horas dentro de um enredo que era para se desenvolver em pelo menos por mais duas temporadas inteiras.

É interessante notar que em vez de ser chamado de episódio especial ou qualquer coisa assim, “Amor Vincit Omnia” é situado oficialmente como o episódio doze da segunda temporada. Isso é um fator importante, porque uma das maiores críticas que eu tinha quanto a série como um todo era o fato de que os últimos trinta minutos do episódio final da segunda temporada tinha soado como “acabou o dinheiro pra fazer mais episódios, vamos esquecer a coerência do roteiro e forçar que todo mundo apareça junto do nada e bolem um plano para capturar o maior vilão da série”. Tudo pareceu apressado e como a temporada tinha sido maravilhosa, isso deixou em mim uma sensação amarga, talvez um prelúdio de que a série fosse ser cancelada.

Com esse novo episódio de duas horas e meia parece que o problema de que as coisas tinham sido aceleradas demais, ou ao menos a sensação amarga que tinha ficado comigo, foi deixada de lado.

Yep, O Final de Sense8 Foi Apressado

Okay, esse episódio por si só NÃO TINHA COMO não ser acelerado, entretanto de alguma maneira o desenvolvimento do enredo soou bastante natural e não uma completa bagunça. A sensação que tive a todo o momento foi de que era mais um filme cujo background do enredo já tinha sido desenvolvido anteriormente do que um episódio de uma série.

Tivemos sim uma tonelada de fan-services e furos de roteiros, principalmente no cast secundário (os furos em sua maioria foram ocasionados pela necessidade de fan-services, no fim das contas). Um exemplo é o fato de Felix e o detetive coreano terem magicamente aparecido na Itália para ajudar nossos queridos sensates.

A meu ver os fan-services foram um modo de a produção agradecer aos fãs por terem lutado para que houvesse ao menos algum tipo de conclusão depois da série ter sido cancelada. Talvez por isso eu não os tenha considerado tão ruins. Tenho certeza de que caso a série tivesse mais temporadas o fim seria mais ou menos parecido, só que apresentando e desenvolvendo num ritmo melhor como o grupo foi se unindo para o confronto final.

Alguns personagens principais, como no caso de Lito e Capheus, ficaram meio apagados nesse episódio final. Acho que não conseguiram encaixar o plot político e de ator de cinema numa história que parece se desenvolver mais ao redor de Kala e Wolfgang (basicamente o cara que foi capturado e seu par romântico dentro do cluster). Os outros protagonistas acabam agindo nas margens desse drama amoroso maior.

No Fim o Amor a Tudo Conquista

Numa série em que as pessoas estão ligadas telepaticamente desde o nascimento, o tema principal obviamente é a empatia. As pessoas que fazem parte de um cluster não só são capazes de se projetar no mesmo ambiente dos outros como podem sentir as mesmas sensações. É uma empatia amplificada, transformada em dados sensoriais mais do que um mero exercício psicológico.

Acho que quando as irmãs Wachowskis propuseram a série elas queriam transmitir a sabedoria psicodélica (ou budista, dependendo do seu referencial) de que somos todos um único ser fragmentado em várias partes. Cada membro de um cluster de sensates é, de certa maneira, a mesma mente dividida em vários contextos socioculturais e históricos diferentes. Isso explica até mesmo a aceitação que Rajan teve quanto ao relacionamento entre sua esposa Kala e Wolfgang. Rajan percebe que é impossível separar os dois, mais do que isso, percebe que Kala e Wolfgang são a mesma entidade dividida fisicamente, se ele ama Kala ele também ama Wolfgang. Muitas pessoas tem reclamado que não faz parte da personalidade de Rajan aceitar dividir Kala com outro homem, porém pelos motivos expressos acima, a mim soou bastante natural. E esse é um dos grandes feitos de Sense8, nos mostrar que o aprendizado e a mudança são elementos naturais da nossa vida.

Aliás, do lado oposto, o fato de Kala ter se apaixonado por Rajan – seu esposo, resultado de um casamento arranjado – no meio de toda a loucura que estava acontecendo, mostra também a aceitação das formas de amor tradicionais. Achei que Lana Wachowski foi muito corajosa ao criticar o feminismo radical na primeira temporada e dessa vez por ter mostrado que às vezes as formas de relacionamentos tradicionais também podem ter como resultado final o amor.

Ainda sobre o triângulo Kala – Wolfgang – Rajan, gostei muito como Kala não quis escolher entre uma paixão mais focada na identificação sexual com Wolfgang ou uma admiração incondicional pelo seu esposo Rajan. Muitas vezes na vida nos dão o conselho de que devemos seguir o nosso coração, o que na prática acaba sendo traduzido por buscar aquele parceiro pelo qual temos mais tesão, mas não é exatamente isso o que significa seguir nossos sentimentos e muito menos o que significa amor. Yep, tesão é amor, assim como admiração e respeito são. Por isso Kala não escolhe um em detrimento do outro, ela considera ambas as coisas igualmente importantes e no fim acaba as misturando.

O Amor a tudo conquista. Sejam preconceitos tradicionalistas ou preconceitos progressistas, no fim o amor é capaz de se sobrepor a tudo. A mensagem está no título do episódio, numa leitura que uma personagem faz nos minutos finais da série e na suruba de despedida. Graças a Sense8, pela primeira vez em meia década eu pude sentir em mim a fagulha da ingenuidade de acreditar novamente que o amor é maior que tudo. A cena do suruba no final da série mostra o corpo de uma maneira tão natural, tão bonita e eu diria até mesmo tão pouco sexualizada, que fez com que meus olhos se enchessem de lágrimas. Literalmente uma suruba que me fez chorar!

Além de ser uma das melhores obras de Ficção Científica já produzida de maneira serial, Sense8 está à frente de seu tempo. Talvez por isso tenha tido resultados não tão satisfatórios no número de público. Recebeu patada tanto de movimentos de esquerda quanto de movimentos conservadores. Mais do que uma obra progressista, com uma agenda social de quebrar os paradigmas, Sense8 é uma expressão autêntica da mente de Lana e Lilly Wachowski. E que seres geniais e maravilhosos elas são!

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